O conceito de espaço é, por assim dizer, uma forma de reconhecimento. Ao olharmos para algo, vemos que ele se estende para três lados – comprimento, largura e altura. A essa extensão chamamos de espaço. E, como se estende para três lados, dizemos que esse algo é tridimensional. O termo espaço surgiu da idéia de que existe uma imensidão vazia, sem fim, e nela estão expostas as coisas. Contudo, vazio é o mesmo que inexistência. Portanto, podemos dizer que espaço não é algo que exista de fato. É a mente humana que concebe a idéia de espaço de dimensões limitadas e vê as coisas enquadradas nesse espaço, como se fosse uma tela enquadrada numa moldura. Como já disse, espaço em si não existe. Na verdade, ele é uma “moldura” que a mente cria quando se propõe a observar algo. Referindo-se a espaço, que é uma “moldura criada pela mente para ver as coisas nela enquadradas”, a Sutra Sagrada Chuva de Néctar da Verdade diz: “o espaço nada mais é que uma ‘forma de reconhecer’”. Ao observarmos uma fotogravura de jornal, percebemos que ela é reticulada. Não é possível fazer uma fotogravura sem retículas. Tratando-se de fotogravura, as retículas constituem a forma de reconhecer. Forma de reconhecer é, por assim dizer, uma moldura criada pela mente para enquadrar as coisas e reconhecê-las concretamente. Criamos a moldura mental e vemos as coisas nela enquadradas, que se apresentam com determinadas dimensões. Em resumo, somente quando nos valemos de uma moldura chamada forma de reconhecer, podemos ver as coisas sob um aspecto determinado.
No caso de fotogravura, se eliminarmos as retículas, a imagem não aparecerá. Fato semelhante ocorre com nossa mente: se não formarmos no interior dela um quadro tridimensional chamado espaço para projetarmos nele as coisas do mundo exterior, tudo que se apresentar diante de nós será projetado na retina como pontos de luz esparsos e, portanto, não poderá ser visto sob uma determinada forma. Na realidade, as vibrações mentais emanadas pela Vida do ser humano – a existência verdadeira – não estão contidas dentro de retículas criadas pela mente; mas, se não usarmos esse recurso, não poderemos captá-las. Por isso, criamos retículas no plano mental e projetamos nelas as imagens. As retículas criadas pela mente constituem a forma de reconhecer. Através dessa forma de reconhecer, as vibrações mentais se manifestam assumindo forma concreta. Então, sem a forma de reconhecer, nada existe? Não é assim. Na fotogravura, se não existirem retículas, não aparecerá à imagem da pessoa; porém, mesmo que a imagem não apareça na chapa, a pessoa existe. A essência do ser humano é Vida, e não o aspecto material. A Vida é invisível. Quando a Vida deseja se mostrar, projeta-se no espaço sob forma tridimensional. Assim, manifesta-se o corpo carnal. Portanto, o corpo carnal não existe de verdade. É a vida que assume temporariamente a forma de corpo carnal. Esse é o significado da afirmação “O ser humano não é corpo carnal”.
Há alguns dias um preletor me perguntou:
_ Professor, forma de reconhecer é algo que existe de fato?
_ Não, não existe.
_ Como é possível ver coisas através de algo que não existe?
_ Forma de reconhecer é desenhada no plano mental. É como um mundo que se descortina no sonho. Ela existe enquanto vemos com os olhos da mente; se não a virmos com os olhos da mente, não existirá.
Assim dizendo, falei a respeito das retículas de fotogravura, da mesma forma que expliquei nas páginas anteriores. Mas esse preletor ainda não entendeu bem e me perguntou:
_ Afinal, que quer o senhor dizer com o termo “retículas desenhadas mentalmente”?
Então, expliquei:
_ Resumindo, é o ponto de vista, ou seja, o ponto de observação da mente. Ao estabelecermos um ponto de observação e olharmos as coisas, poderemos vê-las sob a forma tridimensional. Ponto de observação não é algo que exista concretamente. Enquanto nos situamos num ponto de observação, ele existe para nós; porém, se sairmos desse ponto, ele deixará de existir. _ Quando expliquei desse modo, o referido preletor entendeu.
Enquanto me ouvem palestrando num seminário, vocês olham atentamente para minha fisionomia, mas cada qual me vê de um ângulo diferente, já que a posição do assento varia. Em outras palavras, o ponto de observação de cada um é diferente dos pontos de observação dos outros. Embora eu seja uma só pessoa, a minha fisionomia será vista sob diferentes aspectos por pessoas que me olham de diferentes ângulos. Ao vermos algo, sempre o fazemos de algum ângulo, isto é, de um ponto de observação. Não podemos ver algo sem nos situarmos num ponto de observação. No entanto, ponto de observação não é algo que tenha existência concreta. Os assentos que vocês estão ocupando agora serão seus respectivos pontos de observação? O assento em si não é. O ponto de observação passa a existir a partir do momento em que a pessoa se coloca num lugar. Trata-se de posição; e posição, não sendo algo material, não tem dimensão; não é algo concreto. Por isso, ponto de observação é algo que pode existir ou não. O ponto de observação da mente é forma de reconhecer. Nesta vida, nós ocupamos um lugar no mundo tridimensional, e por isso vemos todas as coisas como elementos materiais tridimensionais.
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